O que muda quando os computadores quânticos amadurecerem
Quase toda comunicação segura da sua empresa depende de criptografia de chave pública. É ela que protege o acesso ao internet banking, a VPN dos colaboradores remotos, o certificado digital usado na emissão de notas fiscais, a assinatura das atualizações de software e o cadeado do navegador quando alguém acessa o site da empresa. Os algoritmos por trás disso são principalmente o RSA e a criptografia de curvas elípticas (ECC). Eles são seguros porque certos problemas matemáticos, como fatorar números muito grandes, levariam milhares de anos para serem resolvidos por um computador convencional.
Computadores quânticos funcionam de outra forma. Em 1994, o matemático Peter Shor descreveu um algoritmo que resolve esses problemas em horas ou dias, desde que rode em uma máquina quântica grande e estável o suficiente. Na prática, RSA, ECC e a troca de chaves Diffie-Hellman deixariam de oferecer proteção real. A criptografia simétrica, como o AES, é menos afetada. O algoritmo de Grover reduz a margem de segurança dela, mas chaves de 256 bits continuam sendo consideradas adequadas.
Ainda não existe um computador quântico capaz disso, e ninguém sabe a data exata em que ele vai surgir. Esse dia é chamado de "Q-Day". O que mudou nos últimos anos foi a velocidade com que as estimativas encolhem. Em 2019, calculava-se que quebrar uma chave RSA de 2048 bits exigiria cerca de 20 milhões de qubits. Em 2025, um pesquisador do Google revisou esse número para menos de 1 milhão. O hardware atual ainda está longe disso, mas a distância diminui a cada ano. E migrar a criptografia de uma empresa leva muito mais tempo do que parece.
"Colher agora, decifrar depois": o risco que já começou
O principal motivo para agir hoje não é o computador quântico em si. É uma estratégia de ataque que já está em uso: interceptar e armazenar dados cifrados agora para decifrá-los quando a tecnologia permitir. Em inglês, ela é chamada de harvest now, decrypt later. Quem captura hoje o tráfego de uma VPN, um backup enviado para a nuvem ou uma troca de e-mails cifrados não precisa ler esse conteúdo imediatamente. Basta guardá-lo e esperar.
Para muitos dados, isso não é um problema real. Uma senha que expira em 90 dias ou a cotação de um pedido de compra perdem valor rapidamente. Mas algumas informações precisam continuar sigilosas por 10, 20 ou 30 anos. É o caso de prontuários médicos, contratos de longo prazo, propriedade intelectual, dados pessoais protegidos pela LGPD, informações fiscais e societárias, projetos de engenharia e estratégias de fusão ou aquisição.
Uma forma simples de medir a urgência é a regra proposta pelo pesquisador Michele Mosca. Some o tempo que seus dados precisam permanecer secretos ao tempo que sua empresa vai levar para migrar. Se o resultado for maior que o tempo até existir um computador quântico relevante, sua empresa já está atrasada.
Por isso, governos e grandes empresas de tecnologia já tratam o tema como prioridade. A maior parte do esforço não está em trocar um algoritmo por outro. Está em descobrir onde a criptografia está, quem é responsável por ela e o que depende de fornecedores externos. Esse levantamento costuma ser a etapa mais demorada de toda a migração.
Os novos padrões: o que já foi definido
O NIST, instituto de padrões dos Estados Unidos e referência global no assunto, abriu em 2016 um processo público em que dezenas de propostas foram avaliadas por criptógrafos do mundo inteiro. Em agosto de 2024, ele publicou os três primeiros padrões de criptografia pós-quântica:
- ML-KEM (FIPS 203), derivado do CRYSTALS-Kyber. Serve para estabelecer chaves de sessão e substitui a troca de chaves feita hoje com RSA ou curvas elípticas em protocolos como TLS e VPN.
- ML-DSA (FIPS 204), derivado do CRYSTALS-Dilithium. É a assinatura digital de uso geral e a candidata natural a substituir o RSA e o ECDSA em certificados e na assinatura de código.
- SLH-DSA (FIPS 205), derivado do SPHINCS+. É uma assinatura baseada em funções hash, mais lenta e com assinaturas maiores, mas apoiada em hipóteses matemáticas mais conservadoras. Funciona como alternativa de reserva.
Em 2025, o NIST também escolheu o HQC como segundo mecanismo de troca de chaves. Ele usa uma base matemática diferente da do ML-KEM e fica de reserva caso alguma fragilidade seja descoberta. O instituto também propôs um calendário: RSA e ECC passariam a ser considerados obsoletos a partir de 2030 e seriam proibidos nos sistemas federais americanos a partir de 2035. Mesmo sem obrigação legal no Brasil, esses prazos tendem a aparecer nos produtos, nos fornecedores e nas exigências de clientes internacionais.
A boa notícia é que a migração já começou na infraestrutura que sua empresa usa todos os dias. Navegadores baseados no Chromium, como Chrome e Edge, e redes de distribuição de conteúdo como a Cloudflare já negociam conexões com troca de chaves híbrida, que combina o X25519 com o ML-KEM. O OpenSSL 3.5 trouxe suporte nativo aos novos algoritmos. A Microsoft vem incorporando o ML-KEM e o ML-DSA à SymCrypt, a biblioteca criptográfica usada pelo Windows e pelos serviços do Azure. Aplicativos como Signal e iMessage também já adotaram proteção pós-quântica nas mensagens.
Por onde começar: um roteiro prático de migração
Migrar a criptografia não é um projeto de fim de semana. Em empresas de médio porte, ela está espalhada por firewalls, VPNs, servidores web, bancos de dados, sistemas legados, aplicações desenvolvidas internamente, dispositivos IoT, certificados digitais e integrações com parceiros. O caminho mais seguro é dividir o trabalho em etapas:
- Inventário criptográfico. Mapear onde há uso de criptografia de chave pública: certificados TLS internos e externos, VPNs, SSH, assinatura de documentos, autenticação de usuários, HSMs e bibliotecas usadas pelos sistemas. Esse levantamento, às vezes chamado de CBOM (lista de materiais criptográficos), é a base de todas as decisões seguintes.
- Classificação dos dados pelo tempo de vida. Identificar quais informações precisam continuar sigilosas por muitos anos. São as mais expostas ao "colher agora, decifrar depois" e devem vir primeiro.
- Conversa com os fornecedores. Grande parte da criptografia de uma empresa vem embutida em produtos de terceiros. Pergunte aos fabricantes de firewall, VPN, ERP, backup e nuvem qual é o plano deles para suportar ML-KEM e ML-DSA. Inclua esse critério nas novas compras e renovações.
- Atualização do que já está pronto. Manter sistemas operacionais, navegadores, bibliotecas e appliances atualizados já ativa a troca de chaves híbrida em boa parte das conexões, sem custo adicional.
- Pilotos em ambiente controlado. Testar os novos algoritmos em um serviço de baixo risco antes de levá-los para produção. Chaves e assinaturas pós-quânticas são maiores, e equipamentos antigos ou mal configurados podem apresentar falhas de compatibilidade e perda de desempenho.
- Migração gradual e monitorada. Começar pelos fluxos que transportam dados de longa vida, como VPNs entre filiais, backups externos e integrações com parceiros. Depois, avançar para o restante conforme fornecedores e padrões amadurecem.
Nenhuma dessas etapas depende da existência do computador quântico para trazer benefício. Um inventário criptográfico bem feito costuma revelar certificados vencendo sem controle, protocolos antigos ainda habilitados e senhas fracas protegendo chaves privadas. São problemas que já representam risco hoje e que podem ser corrigidos durante o próprio levantamento.
Agilidade criptográfica: o princípio que evita a próxima crise
Uma lição importante desse processo é que nenhum algoritmo é definitivo. Durante a própria competição do NIST, candidatos considerados promissores foram quebrados por métodos clássicos. O SIKE, por exemplo, caiu em 2022 com um ataque executado em um computador comum. Por isso, nesta fase de transição, os especialistas recomendam esquemas híbridos, que combinam um algoritmo tradicional com um pós-quântico. Para quebrar a conexão, o atacante precisaria vencer os dois.
Mais importante do que escolher o algoritmo certo é conseguir trocá-lo com rapidez. Esse conceito se chama agilidade criptográfica: sistemas e processos devem permitir a substituição de algoritmos, tamanhos de chave e certificados sem reescrever aplicações inteiras. Alguns cuidados ajudam bastante:
- Não fixar algoritmos no código-fonte das aplicações internas. Prefira bibliotecas mantidas e configuração centralizada.
- Automatizar a emissão e a renovação de certificados, reduzindo a dependência de processos manuais.
- Manter atualizada a documentação de quais sistemas usam quais algoritmos e de quem é responsável por cada um.
- Incluir requisitos de criptografia pós-quântica nos contratos e editais de compra de tecnologia.
- Não adiar a atualização de sistemas legados. Um servidor sem suporte do fabricante dificilmente vai receber os novos algoritmos.
Também vale evitar dois extremos. O primeiro é o pânico: não há motivo para trocar toda a infraestrutura de uma vez nem para comprar soluções que prometem "proteção quântica" sem base em padrões reconhecidos. O segundo é a inércia: quem espera o Q-Day para agir terá dados capturados hoje já comprometidos e fará a migração às pressas, com mais custo e mais risco.
Como a Duk pode ajudar sua empresa a se preparar
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A computação quântica ainda deve levar alguns anos para se tornar uma ameaça prática. Mas os dados que sua empresa transmite hoje podem estar sendo guardados para esse dia. Começar a preparação agora, com calma e método, é a forma mais econômica de chegar lá com segurança. Fale com a equipe da Duk e descubra por onde começar no seu ambiente.
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